Chocolate sim... porque as lágrimas, elas são salgadas.

21.3.17


Quarta-feira, quase quinta, e eu estou sentada no sofá de casa ouvindo um pernilongo cantarolar perto do meu ouvido e eu não consigo pegá-lo. Desistiria fácil de tentar acabar com essa festa, mas a música que ele canta é muito irritante. Muito! Tão irritante quanto aquele cara de moto que falava coisas idiotas enquanto eu atravessava a rua. Não resisti e o questionei se ele tava falando comigo. Questionei de forma agressiva, claro. E ele imediatamente, com uma cara de cínico, me disse que não, não estava falando comigo. "É bom mesmo que não esteja" e segui bastante irritada enquanto ouvia ele falar mais coisas ainda.
Ainda um pouco antes de atravessar a rua, dei uma choradinha. Estava meio perdida. Não sabia pra que lado ir. Na real, eu sabia exatamente onde eu tava e pra que lado era a casa da minha amiga, eu estava perdida é na vida mesmo. E isso me desesperou. E sem eu nem perceber, uma lágrima caiu com toda a força do meu olho esquerdo, aquele olho que está lacrimejando há meses e não para... Mas essa lágrima foi muito maior e mais intensa que as gotinhas que meu olho tem produzido. Foi uma lágrima desesperada. De um desespero desconhecido. Eu não sei nem explicar.
Fui passando pelas pessoas ali, na rua, e reparando em todas elas. Sempre faço isso. Reparar nas pessoas enquanto sigo caminhando... E outras lágrimas foram molhando meu rosto. Enxuguei logo todas elas e parei para esperar minha amiga. Fiquei encostada na parede, pensando nas situações da vida. Talvez eu estivesse com um semblante bem triste que fez um rapaz achar que me oferecer algo fosse me deixar melhor. Ele comia uma coisa que nem vi o que era, porque foi tudo muito rápido. Passou, olhou pra mim, me estendeu o saquinho que tinha na mão e ficou me olhando, enquanto mastigava. Fui pega tão de surpresa que nem consegui balbuciar um "obrigada", apenas fiz que não com a cabeça e o acompanhei com o olhar enquanto ele seguiu a caminhada. Quem se importa em oferecer o que está comendo para uma desconhecida triste encostada numa parede?
Saí de lá e fui comer alguma coisa com minha amiga. Depois compramos coca cola e chocolates pra assistir filmes na netflix ou vídeos no youtube. A gente sempre incentiva uma a outra a se alimentar bem, mas hoje nos demos ao luxo de comer doces poque as lágrimas, elas são salgadas.
É bom encontrar e se encontrar em pessoas que também estão perdidas na vida. A gente vê que apesar disso, a gente sobrevive. E que apesar disso também, a vida segue, por vezes, bonita.
A gente viu filme e vídeos, comemos pipoca e eu sequer abri meu chocolate. Meu estômago estava meio chateado comigo e não quis. Eu o respeitei. Rimos das bobeiras do youtube, tomamos muita coca cola e desabafamos sobre os medos da vida. São medos tão diferentes, mas tão iguais. Porque doem da mesma forma. Amedrontam com a mesma intensidade.
Compartilhar nossas dificuldades, nossas falhas, erros, ansiedades e medos é sempre bom. Você chora copiosamente e a pessoa continua te ouvindo como se nada tivesse acontecendo. Aliás, o que eu gosto nessa minha amiga é que ela não fica tentando me dizer que tá tudo bem, que vai passar ou melhorar. Ela só ouve mesmo. E às vezes é exatamente disso que a gente precisa, alguém que só ouça e diga "quer mais coca cola?" ou "a pipoca está sem sal, né?". Não, eu não sinto como se ela estivesse desprezando minhas lamentações. Sinto que ela está ouvindo muito bem, entendendo perfeitamente e respeitando minha dor a ponto de me mostrar que tomar coca cola e por mais sal na pipoca não vai solucionar nada, mas vai me deixar mais confortável. Comer coisas gostosas deixam a gente confortável. E isso é bem bom quando se está desesperada sem ao menos saber exatamente o motivo.
Passamos a tarde toda juntas e um pedacinho da noite. A gente falou bobeiras e coisas sérias. A gente se abriu. E a gente precisa disso na vida! Você precisa se abrir também e, enquanto faz isso, come uma pipoca ou um chocolate ou qualquer outra coisa que faça seu estômago sorrir de tão gostoso que é pra você. Não espere muito tempo, não espere as coisas explodirem. Chama aquela sua amiga e tire um tempinho pra vocês.
Voltei pra casa mais leve, como se todos os problemas tivessem sido solucionados. Mas não, eles continuam da mesma forma, só não pesam mais tanto assim aqui dentro. Não estou mais incomodada a ponto de uma lágrima escorrer com intensidade. Agora, a única coisa que me tá me deixando desconfortável mesmo é esse pernilongo que de tempo em tempo canta no meu ouvido. E foge. E volta. Ele me engana, mas não vai conseguir me tirar do sério. A coca cola tinha açúcar suficiente pra adoçar minha amargura.
To bem de boa. ♥

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