Havia um câncer de tireoide no meio do caminho

13.10.16

Hoje lembrei daquele dia em que apalpei meu pescoço e senti uma coisa estranha. Eu lembro exatamente da cena: era uma típica noite de calor na minha cidade, Campo Grande. Estava deitada no chão da sala, assistindo TV ao lado do Duca, que na época era meu noivo - e iríamos casar dentro de um mês, exatamente dia 02 de novembro de 2014. Estávamos conversando sobre doenças que fazem engordar (que assunto, heim?!) e ele falou algo como "problemas na tireoide".

Tireoide, aquela glândulazinha que fica no pescoço, tem o formato de uma borboleta e que produz hormônios que controlam a velocidade do metabolismo do corpo, influenciam o nosso desenvolvimento e controlam o sistema nervoso. Hormônios de mais, é mau. Hormônios de menos, também! Lembrei que havia mesmo lido em algum lugar da internet sobre "nódulos na tireoide" - e sinceramente nem sabia direito o que era e como era a tireoide. Aí, então, passei a mão pelo meu pescoço e do lado esquerdo senti uma coisa diferente. Passei a mão de novo e de novo e de novo... Achei que era normal até apalpar o pescoço dele e não sentir nada. Fiquei grilada. Fui até minha mãe "posso ver seu pescoço?" e passei a mão. Nada.

Meu pai, meu irmão... o pescoço de todo mundo era igual, mas o meu tinha um carocinho estranho por ali. Mostrei pra eles e "vamos ver isso no médico".

Já estava com a ginecologista marcada, pra fazer os exames pro casamento, e então esperei. Desde aquele dia, toda vez que me olhava no espelho e erguia um pouco a cabeça eu via: um caroço. De onde surgiu? Desde quando estava ali? Por que eu nunca vi, nunca senti?

Chegou o dia da consulta e falei pra médica do "carocinho no pescoço". Ela apalpou, pediu uns exames de tireoide e me encaminhou para uma endocrinologista. Fiz os exames e não conseguia marcar nenhuma endocrino em tempo: eu iria casar em um mês! Não dava pra esperar três meses pra uma consulta.

A ladainha foi longa, mas conseguimos. Dra. Ana Rosa, lembro bem o nome dela. Uma senhora amável que apalpou meu pescoço e disse que era um caroço de aspecto estranho. Ela me fez sentar e prestar bastante atenção em tudo o que diria. Me deu uma aula sobre a glândula da tireoide, sobre o iodo presente no nosso sal e sua importância, sobre bócio, sobre o formato da tireoide, os hormônios produzidos por ela, a importância dessa glândula, os problemas que ela pode apresentar...

Saí de lá com o diagnóstico de que tinha hipotireoidismo - e o pedido de uma punção, para verificar o que era aquele caroço. Soube que minha tireoide era preguiçosa, produzia poucos hormônios. Ops, eu lembro que isso é mau!

Uma vez que glândula está preguiçosa, a gente fico lenta, cansada, fraca e muitos, muitos outros sintomas. A lista de sintomas de hipotireoidismo é tão grande que é inacreditável.

Fiquei sabendo, ainda, que muita gente trata os sintomas de hipotireoidismo de forma pontual, sem saber que é hipo. E isso é muito perigoso.

Desde então tudo começou a fazer sentido: meu cansaço além do normal, meu sono eterno, minhas unhas sempre muito fracas, minha queda de cabelo constante, as marcas de dente que ficavam na língua sempre que eu acordava, a dificuldade em acordar cedo e sair da cama, a intolerância ao frio, o intestino preso... e tantos outros sintomas!

Então fui apresenta ao Synthroid: meus hormônios sintéticos. Como minha tireoide estava produzindo poucos hormônios, eu precisava de mais, de alguma forma. E a forma é tomando esse remedinho todos os dias, ao acordar, meia hora antes do café da manhã. Todo-santo-dia.

Não foi difícil acostumar com o remédio. Difícil mesmo foi fazer a punção para saber o que era aquele caroço... Sempre tive muito pavor de agulha e, naquele momento, uma agulha bem grossa seria enfiada em meu pescoço e o médico faria movimentos de puxa-empurra. Doeu e deu muita agonia. Mas passou. Passei por essa! Agora era só esperar o resultado. Mas, pela cara que o médico fez assim que terminou a punção, senti que não era nada bom. Ele fez uma cara muito estranha e disse algo como se aquilo fosse sério, mas que eu não precisava me preocupar. Sinceramente nem entendi o que ele falou e saí de lá com uma interrogação flutuando na minha cabeça, vez ou outra uma interrogação triste, como se soubesse, lá no fundo, que tinha algo bem ruim...

RESULTADO

O resultado? Aparente carcinoma papilífero. Carcioquê?? Câncer. Câncer na tireoide, pra falar no popular.

Mas como assim? Eu nunca senti esse nódulo. Eu vou casar daqui um mês. Eu não posso ter doença nenhuma agora. Tenho que estar preparada e pronta pro meu casamento, pra mudança de casa, de cidade, de estado, de vida!!! Não tenho tempo pra isso.

Mas doenças não escolhem tempo. Elas aparecem e pronto, se vire pra curar, tratar, o que for!

Eu confesso que até hoje minha ficha não caiu. Eu tive câncer! Isso é um tanto assustador, mas parece que eu estive anestesiada o tempo todo. Claro, não posso negar que procurei muuita coisa sobre o assunto na internet. E chorei. Muitas noites, sozinha, antes de dormir, ainda deitada na minha cama de solteiro, eu chorava a chateação de ter algo tão estranho, até então tão desconhecido pra mim.

"Meu amigo da área médica me disse que esse é um tipo de câncer muito tranquilo, o menos agressivo, que se alguém pudesse escolher ter câncer, seria esse! Uma cirurgia e um tratamento já cura...", foi isso que Duca me disse por telefone. É, por telefone, porque ainda morávamos em cidades diferentes e era assim que nos falávamos.

Ouvi muita coisa. "Fulano teve, curou rápido". "Meu parente X teve, é tranquilo". "Beltrana fez a cirurgia"... e por aí vai.

Minha médica foi enfática ao ver o resultado da punção: você precisa fazer uma cirurgia o mais rápido possível! Não sabemos desde quando esse nódulo está aí, nem a velocidade do crescimento dele. Não podemos protelar.

Oi? Cirurgia como, doutora? Em um mês tenho uma mudança e um casamento marcados. Não dá pra fazer isso. A gente vê isso depois do casamento, ok? Procuro uma nova médica lá em São Paulo e vejo isso.

Mas não, não teve mudança nem casamento que fosse mais importante naquela hora. Ela falou sério, não tínhamos tempo a perder. Era preciso correr.

E eu, então, fiquei naquela: antes ou depois de casar? Meu pai já estava correndo atrás de um cirurgião de cabeça e pescoço para fazer essa cirurgia. Eu ainda queria ver isso tudo depois do casamento. Não entrava na minha cabeça uma cirurgia àquela altura. E a recuperação? E a cicatriz? Vai dar tempo?

Duca me incentivava a fazer logo. O quanto antes. "Cicatriz alguma vai te deixar feia. Nada vai atrapalhar nosso dia, por isso você tem que fazer cirurgia e tirar isso do nosso caminho". Eu não queria. Não mesmo! Mas como eu estava meio anestesiada, fui fazendo o que mandavam eu fazer. E o cirurgião de cabeça e pescoço já estava marcado.

A secretária do cirurgião me chamava de Rafa o tempo todo e eu pensando "nem conheço, que intimidade é essa?". Mas não era ela que me incomodava, era o fato de estar ali, numa consulta com um cirurgião. Céus! Nunca fiz uma cirurgiazinha na minha vida e agora, justo agora, faria uma?

Mas havia um câncer de tireoide no meio do caminho, e pra seguir a caminhada era necessário tirá-lo de lá.

CIRURGIA

Dia 13 de outubro de 2014 (exatamente 2 anos atrás), quase 15 dias para o casamento, chegou o dia da cirurgia. Acordamos cedo, muito cedo. Eu acordei estranha, uma certa dor na barriga, sei lá, estava estranha. Hoje tenho certeza de que era ansiedade e preocupação e medo e tudo junto, misturado, subindo do estômago pra garganta. Tava calor, muito calor. Chegamos no hospital, fizemos os procedimentos até que fui chamada. Dei tchau para meus pais e subi. Ainda estava estranha, meio zonza até.

No elevador, com a sensação mais esquisita da vida, me sentindo enclausurada, tentei ficar em silêncio, mas uma mulher ficou puxando assunto "o que você vai fazer? Sua primeira cirurgia?" e começou a falar de corte e cicatriz e já não ouvi mais nada, tentei me concentrar pra não vomitar ali no meio delas. Eu estava bem zonza.

A enfermeira me levou até um quarto coletivo, quente, com o sol batendo justamente na minha cama. "É aqui que você vai ficar depois da cirurgia. Pode deixar suas coisas ali e vestir isso. Já já te chamo". Tava muito calor. Fiz o que ela disse e deitei na cama pra esperá-la. O sol batia em mim e não gostei daquilo. Logo eu, que tanto amo o sol...

Aí ela veio e me chamou. Entrei numa sala, deitei numa maca muito estreita e ela me apresentou quem injetaria em mim a anestesia e, mais uma vez, me pediu pra esperar. A maca era muito estreita, se eu relaxasse um pouco os braços, eles poderiam cair. Fiquei ali me concentrando nem sei em que, até que o médico veio, me falou algumas coisas que já quase não me lembro. Ele avisou que teria que tirar o nódulo e toda a minha glândula da tireoide. O nódulo era grande, estava muito encostado na glândula. Tinha que tirar tudo, uma tireoidectomia. Então aplicaram a anestesia e pronto, não vi mais nada.

Abri os olhos e vi o teto. Olhei levemente para o lado e vi várias macas com várias pessoas deitadas. Fui entendendo onde eu tava e lembrando que eu havia feito uma cirurgia. Senti algo no meu nariz e lembrei do filme "A Culpa é das Estrelas". A Hazel andava com aquele tubinho no nariz. Eu estava igual a ela. Ela teve câncer de tireoide, sabia? Mas o dela deu metástase... (fiquei sabendo disso há pouco tempo. Ainda bem!).

Senti dor. Muita dor. Até que a enfermeira viu que eu acordei e veio até mim "tá tudo bem?". Falei que estava sentindo muita dor na região do pescoço. Muita mesmo! Ela disse que chamaria o médico para me dar uma medicação. E ela demorou pra voltar. E eu chorei de dor.

Até que ela voltou "o médico está numa cirurgia, mas vem logo". Repeti que estava doendo muito. Ela saiu novamente. E eu chorei mais. Até que voltou e aplicou a medicação no caninho que seguia um soro pra minha veia, na parte de cima da minha mão.

E a dor passou.

Fui levada pro meu quarto, na maca, olhando pro teto, sentindo o chão irregular... Chegamos e aquele não era o meu quarto de antes da cirurgia. Agora tinha ar condicionado e apenas minha cama. "Seu pai pagou por um apartamento com ar condicionado pra você, por isso mudamos de quarto. Suas coisas estão aqui, fique tranquila". Fiquei mesmo tranquila. E agradecia muito muito a Deus pela vida do meu pai.

Se não me engano, minha mãe já estava no quarto me esperando. E me transferiram da maca pra minha cama. Foi estranho, balançou muito, fiquei enjoada e me disseram "é normal ficar enjoada, é efeito da anestesia. Só tenta não vomitar, pode estourar os pontos da cicatriz no seu pescoço e a gente vai ter que voltar pra sala de cirurgia". Ok, aquela frase fixou na minha cabeça "não vomitar, não vomitar, de forma alguma vomitar!".

Tive enjoos e ânsias e muito medo dos pontos. Ah, como Deus sabe o medo que tive!

Mas fiquei quietinha. Tinha um curativo enorme no meu pescoço e dois drenos. Aquilo dava muita agonia. Eu movimentava lentamente minha cabeça e era como se toda a pele do pescoço puxasse.

Tava tudo ok até sentir vontade de fazer xixi. "Você não pode levantar, vamos fazer xixi deitada, nesse penico, ok?". Não, não ok. Não consegui de forma alguma fazer xixi naquilo. Impossível. Quero um banheiro. "Tá, vamos levantar lentamente para você não enjoar, o efeito da anestesia ainda não passou". E fomos até o banheiro. E a enfermeira foi levando o soro e minha mãe me segurando.

Duas pessoas comigo no banheiro e tive que fazer xixi. Pelo menos consegui. Voltamos pro quarto e nada de enjoos.

Não me lembro muito bem de mais detalhes, só que amigos e parentes foram me visitar, que teve um momento em que senti muito calor e o ar condicionado super gelado. Consegui dormir bem. Tudo correu bem e dia seguinte já tive alta.

Tiraram o dreno e aquilo foi muito ruim! Fui do meu quarto até o carro, no subsolo do hospital, de cadeira de rodas. Aquele balanço todo me deu enjoo. Não! Eu não podia enjoar, não podia ter ânsia, segura firme! Quando chegamos no estacionamento, estava muito muito muito calor, o maior calor da vida, uma bolha de calor envolveu Campo Grande e parecíamos viver no inferno. Aquilo piorou meu enjoo. Entrei lentamente no carro, sentei no banco e: vômito! Socorrooooo, eu não podia estar vomitando!!! E os pontos? Vai forçar os pontos, vou ter que voltar pra sala de cirurgia... Mas ficou tudo bem.

RECUPERAÇÃO

Passei a semana inteira no quarto dos meus pais, porque tem ar condicionado, claro. O calor na cidade continuava nível inferno e eu passei uns 5 dias sem sair do quarto. Ia da cama pro banheiro, do banheiro pra cama. Meus pais cuidaram bem de mim que ainda que eu passe o resto da vida agradecendo, não agradeceria o suficiente. Duca não pode ir pra Campo Grande por conta da agenda da banda, mas me mandou um buquê de flores que me fez companhia todos os dias.

A melhora era nítida dia após dia. Em uma semana já levantava bem, me sentia muito melhor. Andava meio robótica porque a pele do pescoço ainda repuxava. O curativo era só um tipo de esparadrapo que eu precisava dar uma limpadinha todos os dias. Não precisou tirar os pontos, porque eles eram internos. Tudo seguia bem até um dia em que comecei a sentir meus pés e minhas mãos formigarem. Ler coisas na internet pode não ser bom, mas naquele momento foi. Fiquei tranquila porque já havia lido que é absolutamente normal esse formigamento. Falta de cálcio. Isso acontece depois da cirurgia.

Ligamos pro médico e ele passou cálcio para tomar. Fui tomando conforme ele mandou e o formigamento foi passando. Aquilo foi um alívio. Formigamento no corpo é algo como "vou morrer agora!". Mas a gente sobrevive.

Sobrevivi. E uma semana depois eu estava 85% bem. O cirurgião disse que a análise do nódulo retirado na cirurgia confirmou o carcinoma papilífero. Ali eu já estava sem tireoide, dependente do Synthroid pro resto da vida e me preparava pra mudar. Duca vinha pra minha cidade de avião e iríamos a São Paulo com meu carro. Carregado de coisas. Minhas coisas, coisas do casamento, uma vida nova!

A viagem foi longa, são quase 1.000km de Campo Grande a São Paulo. Paramos muitas vezes pra eu dar uma relaxada. E chegamos na minha nova cidade, nova casa...

Mais uma semana e tirei o esparadrapo da cicatriz, morrendo de medo de ficar marcada, roxa, feia pro casamento que estava chegando. Faltavam poucos dias pro meu Grande Dia. E a cicatriz estava pequenininha, sensível, rosadinha. Nada que atrapalhasse.
No dia do casamento, fizemos uma maquiagem em cima dela. E hoje, pensando bem, eu não devia ter escondido minha cicatriz. Ela é marca importante da minha vida. Por ela tiramos minha borboleta e um câncer de tireoide que entrou no meio do meu caminho, mas não me impediu de seguir.

Num próximo post falo sobre o tratamento necessário pós cirurgia - e que fiz só um ano depois, a iodoterapia. 

E como é perceptível, não tenho nenhuma foto no hospital, nem da minha cara pós cirurgia, nada disso. E tudo bem. :)

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