Posso raspar a vasilha de massa do bolo?

29.8.16

Minha mãe sempre fez muitos bolos em casa e eu era a rainha em raspar a vasilha da massa. Meu irmão é muito mais novo que eu e não gostava muito disso, o que fez de mim a única. Eu amava! Não tinha graça ter bolo sem que eu tivesse lambido toda a vasilha. 

Cresci e peguei o gosto em fazer bolos. No início, quando fazia uma receita, colocava a massa na forma e mal passava a colher na vasilha, pra sobrar bastante “raspinha”. Não bastasse, ainda deixava um pouco a mais dessa massa para me deliciar enquanto levava o bolo pro forno. Um dia, nesses momentos de raspar a vasilha e pensar na vida, me peguei olhando pro futuro: “e quando eu tiver filhos? Vou ter que dar a vasilha pra eles? Vou ter que abrir mão desse momento tão gostoso e só meu?”. Me pareceu um tanto difícil fazer isso...

Ainda não tenho filhos. Mas tenho uma enteada e foi com ela que experimentei aquela temida sensação de abrir mão da vasilha da massa de bolo.

Dia desses, na cozinha... 
- tia, o que você está fazendo?
- um bolo!
-oba!!! Quando você terminar, me chama pra raspar a vasilha da massa? Eu adoro massa de bolo!

Pois é... não esperava ouvir aquilo. Não estava preparada, talvez. Mas depois que ela saiu da cozinha, lembrei de quando eu pedia pra minha mãe me chamar justamente pelo mesmo motivo. Só que às vezes ela se esquecia. Isso!!! Eu poderia “esquecer” também!! Mas, no meio dessas lembranças, me veio aquele sentimento chato que eu tinha quando minha mãe se esquecia de me chamar. Eu chegava na cozinha e: a vasilha cheia de água dentro da pia. Que tristeza! Era uma tristeza profunda. Não fazia mais sentido ter um bolo se eu não raspei a massa! Ao recordar dessa tristeza eu não poderia “me esquecer” do pedido. Eu conhecia bem aquela ansiedade que ela saiu da cozinha sentindo.

Quando terminei de colocar a massa do bolo na forma, olhei pra vasilha e não consegui fazer nada a não ser chamá-la. Entreguei a vasilha e a colher sem nenhuma dificuldade. Vê-la se deliciando com a massa me deixou satisfeita. Tão satisfeita como se fosse eu quem estivesse ali no lugar dela. E olhando para ela, senti um amor diferente. Muito menor do que amor de mãe, muito maior do que amor de amiga. Não sei explicar. Sei que ela não é um pedacinho de mim, mas é parte da minha vida.

Ter enteada e conviver muito bem com ela é uma sensação diferente. Um medo de tentar me aproximar demais e ocupar um lugar que não é meu. Medo de não criarmos um laço de amizade. A gente precisa encontrar o equilíbrio em muitas áreas da vida e essa é uma delas na minha. 

Conviver com uma criança que não é minha filha, mas é um pedacinho da pessoa que eu amo, é diferente de tudo o que eu poderia imaginar viver e sentir na vida. Não é difícil, mas também não é fácil. É diferente.

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