Velha e conhecida, mas nunca amiga: depressão #PostAmigo

3.5.16

{Post Amigo}

A depressão é uma velha conhecida minha.
Só fui saber disso anos mais tarde, quando eu tinha bem mais informações sobre o assunto.

Tive uma depressão na infância e outra na adolescência, aos 13 anos. Digo depressão forte pontual, daquelas que você chora uma semana copiosamente sem parar e sem motivo. Ainda lembro, foi  intenso.
Mas o que eu mais me lembro era a minha mãe dizendo de fundo "essa menina tem demônios".
Não deixa de ser, todos temos os nossos "demônios"...

Mas naquela época, essa expressão tinha apenas um significado: que você estava possessa de um espírito mal. E a única forma dele ir embora era passar por uma daquelas sessões de exorcismo, tipo que a gente vê na TV naqueles canais.
Imagina isso na cabeça de uma adolescente?
Eu vou ser conhecida por isso, ninguém vai querer ser meu amigo, as pessoas vão ter medo de mim...
Aí se instalava o medo e a ansiedade de uma forma muito violenta. Porque a qualquer sinal de mal estar, principalmente se eu estivesse na igreja, as palavras da minha mãe viravam um enorme fantasma! Podia ser enjoo, fome, calor... e eu já começava a entrar em alerta e em diálogos intermináveis comigo mesma.
Posso ter demônio? E se eu cair aqui e começar engrossar a voz? E se eu me tornar aquela menina do exorcista? Ok, eu não assisti o filme até hoje, tinha muita coisa na minha cabeça pra lidar com aquilo... Até hoje não vejo filmes de terror.
Um pouco desse medo trazia consigo um padrão visto na família, porque tenho uma tia que vivia um pouco disso. Na verdade, era minha tia mais próxima e ela que me levou aos médicos,  foi nas reuniões da escola... Minha  mãe estava ocupada demais, principalmente indo aos montes (orar) e fazendo reuniões com as irmãs em casa. Então minha tia fazia esse papel.
Mas minha mãe, tadinha, ela tem sua história difícil também... E isso é coisa pra outro texto.

Minha tia ficava em casa por causa da doença. Hoje ela tem diagnóstico de esquizofrenia, está internada. E agora eu tenho que lidar com a dor de saber que ela está lá internada tomando medicações pesadas. Mas ainda assim parece melhor que antes.

Antes, ia um monte de gente lá na casa da minha tia fazer orações pesadas. Era assim como eu via aquele monte de gente chegando. Não era algo doce, com música, biscoitos, palavras de ânimo... não!
Eu era bem pequena e entrava aquele batalhão de irmãs fazendo orações pra minha tia levantar da cama. E tinha exorcismo forte.
Minha tia falava com uma voz estranha, umas coisas estranhas... e era isso sempre. Durou anos. Só que era esquisito pra mim, porque eu não conheço alguém mais doce comigo como tia foi e é, que fazia batata frita, ovo, bife arroz e feijão pra mim, me deixava ver os desenhos que eu quisesse, e isso era uma parte da minha felicidade.
Ela tinha seus defeitos por causa da doença, ou demônio como algumas pessoas encaram, mas comigo era sempre muita doçura.
Mas aí na cabeça de uma criança ficavam esses registros todos. E minha mãe falando que havia possibilidade de eu ser essa pessoa, que não pode falar com Deus direto. Eu até imaginava que um dia desses ia ter que entrar aquele batalhão de irmãs pra acabar com aqueles sintomas que eu tinha. Era um choro sem motivo, uma canseira sem fim, insônias, enjoos e muita tristeza...

Os anos foram  passando, fui conhecendo gente e a vida foi expandindo. Ainda mais com a parte boa da internet que é fazer mais amigos e mais rápido. E se informar mais rápido também.

Eu conheci uma alma boa, conhecido por Alma mesmo.
Nessa época eu e ele não éramos de passar muito tempo conversando. Era algo mais de "oi" e "tchau".
Mas um dia ele perguntou se eu estava bem. Perguntou uma, duas vezes, e na terceira eu respondi: "hmmm está muito na cara?". Ele disse "não é tão óbvio assim pra quem não costumar ver a alma das pessoas". Esse episódio se repetiu mais umas quatro vezes com amigos que eu admirava e que professavam também a mesma fé que a minha, me mostrando que a ciência também é um instrumento de Deus e que ela não está ali necessariamente negando a existência de Deus.

Porque não buscar tratamento médico e psicológico?
Nesse ponto a depressão levou à ansiedade que levou alguns à episódios de crise de pânico. Comecei a ter além de depressão, ansiedade generalizada e síndrome do pânico. E um transtorno chamado agorafobia.

O primeiro episódio mais forte foi um dia no metrô da Sé, ás 8h da manhã.
Eu sempre andava normal naquela rotina insana que eu vivia. Se escuto "Ana", de Mallu Magalhães, eu penso que foi pra Eline daquela época que saía cedo e sempre sem saber o motivo.
Naquela manhã, quando a porta fechou em partida pra outra estação, eu comecei sentir que eu ia morrer ali. E, do nada, comecei a gritar por socorro.
Gente, socorro de quê? Pois é... Hoje tenho muita explicação para esse episódio. E também quase nenhuma...
Comecei a tirar jaqueta, cachecol, buscar o ar que começou a falhar do nada, segurar no braço de desconhecidos pedindo ajuda.
Na próxima estação tentaram me tirar, o que não foi tarefa fácil. Pensando que isso era na Sé, de manhã... Saí dali cansada, exausta. Não lembro do resto. Lembro só de estar muito atordoada.

Essa época foi muito conturbada.

Eu não lembro de muita coisa, mas lembro de pular de emprego em emprego. E depois disso não conseguia mais pegar metrô. E isso contribuiu pra minha vida de paulista ficar pior. Sem metrô e sem carta em São Paulo fica muito ruim.

Como a crise aconteceu em um lugar fechado e cheio e que eu não tinha como sair com facilidade, comecei a evitar, inconscientemente, essas condições. Elevadores, estradas longas, pontes extensas... na época eu cantava no coral da igreja.
Antes de sair totalmente, buscava ficar sempre perto de portas, precisava me certificar que eu pudesse sair com facilidade.
Uma vez precisei subir 19 lances de escada de salto alto pra uma entrevista de emprego. Porque a possibilidade de ficar presa no elevador era muito desesperadora pra mim.

Anos mais tarde, como eu menciono acima, alguns amigos me convenceram a procurar ajuda médica.
Já era um pouco tarde, eu tinha 27 anos na época. Mas comecei a fazer terapia e tomar medicação.
Foi difícil acertar o tipo de terapia e a medicação correta.

Minha vida profissional ficou prejudicada por conta da doença, mas com a ajuda de terapia consegui casar com uma pessoa que está totalmente engajada nesse meu processo de cura.
E graças a Deus, que foi arquitetando tudo de forma mais harmônica e equilibrada. Hoje eu tenho uma rede de apoio que me ajuda e me instrui.

É claro que eu, como professo a fé em Jesus Cristo, convivo com pessoas que professam a mesma fé. E às vezes é difícil, tem sempre uma pessoa que fala da graça, mas não te olha com graça. Te olha com aquela desconfiança e faz uma conta muito simplória, sem levar em conta o todo, a sua história, as suas condições fisiológicas.
Eu já ouvi assim:  "medo é falta de fé"  e "sem fé é impossível agradar a Deus". Ou "desculpa, mas acho que a graça de Deus não está na sua vida". Ta! A pessoa não fala exatamente assim, mas a gente sente no olhar dela.

Nenhuma pessoa que eu conheço tem a coragem de dizer "olha, acho que tem alguma coisa errada". Mas te olha, ou fica parafraseando as coisas. E isso já machuca. O mundo de preconceito e julgamento faz uma casca na gente. E você fica muito frágil. Ou fica na defensiva.
Porque essas pessoas são meio que a minha mãe em forma daquele fantasma sabe? Apontando o dedo pra dizer que Deus não me ama.
Sempre vai ter um pra olhar e dizer "o amor lança fora todo medo", "Ele levou sobre si nossas dores". E eu entendo que é difícil pra quem acredita em Jesus aceitar que o irmão está doente por tantos anos. Porque pra quem acredita em Jesus entende que o evangelho não é uma filosofia, a gente não está falando de um dado histórico. Eu sei que é impossível ter um encontro real com o que Cristo fez e continuar da mesma forma.
A revelação desse amor é tão forte que nunca seremos os mesmos após esse encontro, eu prefiro até chamar de reencontro.
Mas esse poder transforma nosso espírito e não anula nossa condição como humanos.

Olhando o macro, vejo muita graça e amor de Deus na minha vida. Eu poderia ter caído na mão de muito médico impostor, estar internada e recebendo tratamento errado, até mesmo tirado a própria vida como é o caso de quem sofre disso, a gente vê notícia sobre isso o tempo todo.
Tanto coisa poderia acontecer... Eu perdi meu emprego, mas não me falta nada. Tenho amigos, tenho uma vida normal, mas com algumas limitações.
Olhando o micro: depressão não é coisa de Deus, síndrome do pânico, muito menos... tem algo de errado com você.

O fato de eu buscar auxílio médico não anulou minha confiança em Deus, me colocou em contato com minha humanidade e isso aumentou minha confiança Nele. Porque em contato com minha humanidade eu pude ver a necessidade da divindade na minha vida.
Esses irmãos que me orientaram a procurar ajuda médica demonstraram amor. E esse amor lançou fora aquele medo que eu tinha de olhar para isso. Foram eles que me pegaram pela mão.

Um cego Jesus curou logo de cara, o outro Ele cuspiu no barro e sujou o olho. E ambos receberam a cura.
A minha cura está vindo.

Eu tenho limitações. Recentemente perdi um voo porque tive aquelas sensações e não consegui entrar no avião, mas isso foi na volta de um mochilão. Uma viagem que nunca pensei fazer por conta dessas limitações de saúde.
Agora eu pego elevador. Quando tenho uma onda de tristeza muito forte já sei que a serotonina pode estar baixa, então sei o que eu preciso comer, sei quem são as pessoas que posso ligar e conversar.
Quando tenho uma síndrome do pânico eu já não penso que está havendo manifestação de demônios, eu sei que ouve uma descarga de adrenalina e posso fazer respirações que aprendi na terapia. Respirações que oxigenam meu cérebro.
E em seguida agradeço a Deus por ter me ensinado tudo isso.

É fácil? Não, nem um pouco.

Como falei no começo do texto que a depressão é uma velha conhecida, afirmo que ela foi uma porta para eu querer saber mais sobre mim, olhar mais pra dentro. Buscar a paz no meio de tanto desconforto, de tanto desencaixe. Me relacionar comigo mesma, ou seja, com Deus. No meu silêncio, no meu íntimo, na minha solidão. Encontrar a oportunidade de ouvi-Lo no meu apartamento silencioso ou na cidade toda muvucada.

Eu acredito que eu fiz algo de mal para acontecer isso comigo? Não.
Eu acredito que Ele me ama? Claro!

Penso que quando a gente aceita aquele sofrimento com gratidão entendendo que uma dor pode ser a melhor parte, a parte que você vai crescer, isso é o melhor conforto da vida.
Quando a gente aceita aquele problema como algo da vida, um ensinamento - e não como castigo, é que a gente encontra a paz de se olhar e dizer "está tudo bem". ♥

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*Eline é uma amiga, uma grata surpresa da vida. Por intermédio de amigos em comum, nos conhecemos. Vez ou outra nos encontrávamos na minha casa (no grupo de oração que fazíamos com amigos e conhecidos) ou na casa de alguém, numa confraternização. Aos poucos fomos nos aproximando e hoje tenho um carinho e admiração muito grande por ela. Convidei-a para escrever pro {PostAmigo}, contando sobre seus problemas, no intuito de gerar empatia e poder ajudar a sociedade, disseminando informações sobre a depressão e podendo, ainda, provocar reconhecimento de alguém com o texto. 

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