Diagnósticos estranhos e um pudim no forno

2.4.16

São quase três da manhã. A sala está escura e eu estou tendo um pouco de dificuldades de digitar, mas tudo bem. Ele está aqui do meu lado. Comendo farinha láctea e assistindo filme. A gente ama farinha láctea aqui em casa. O filme? Sinceramente nem sei. É alguma coisa de super heróis, talvez.
Ainda acho estranha essa fome doida que ele sente na madrugada. Também já achei estranha essa vida noturna, mas meio que caí na teia e cá estou, tarde da noite, acordada. E, acredite, tem um pudim no forno! Primeira vez que faço pudim. Foi fácil. Mas demora muito no forno... Minha mãe bem que me avisou pelo whatsapp. Sim, eu recorro à ela para perguntar coisinhas de casa que ainda não sei.
Não estou assistindo o filme com ele porque eu estava jogando no celular. E acho que ele também sabe que eu nem curto muito esses filmes... Tava concentrada no jogo e reconheço que sou bem competitiva - ele também -  e por isso estou bem feliz em estar muito à frente dele no joguinho. Nós jogamos TwoDots. E às vezes dá vontade de deletar o jogo do celular. Quase sempre quando estou perdendo ou presa numa fase. Isso é bem irritante. Mas aí consigo passar e disparo na frente dele. Aí é ele que vem falando que quer desinstalar o jogo. E assim vai. A gente se provoca. E ri um do outro.
Bom é quando a gente ri. Mas nem sempre é assim, né não? Desde ontem, por exemplo, eu tenho mais sentido vontade de chorar do que de rir. É que fui na médica levar uns exames pra ela ver. Eu já havia bisbilhotado os exames antes dela. E fiquei um tanto preocupada. Mas como sou boa na estratégia de esquecer as coisas chatas da vida pra seguir em frente, esqueci e deixei que ela me lembrasse. Confesso que a cara que ela fez enquanto olhava exatamente o exame que me preocupou, me preocupou um tanto mais. Quando ela me disse que iria precisar de outros exames mais sério, me deu um misto de raiva dela por estar falando aquilo com raiva de mim por ter isso e vontade de chorar. Segurei, claro! Não ia chorar na frente da doutora, né?!
E na verdade estou segurando esse choro até agora. Não quero chorar na frente de ninguém, nem de mim mesma. Eu sei que é preciso libertar isso, mas sinceramente nem consigo. Eu quero, mas não consigo. Entende?
Eu já tive um nódulo cancerígeno na tireoide, o que acarretou numa cirurgia e num tratamento iodoradioativo. Eu jurava que depois desse tratamento chatinho eu estaria curada. Mas parece que as coisas não caminham exatamente como a gente jura que vão caminhar... Nos exames atuais, apareceram alguns nódulos no meu pescoço. No lugar onde a glândula da tireoide ficava. Ficava, porque não tenho mais. Ela foi retirada na cirurgia. A glândula, também chamada de borboleta - por causa do seu formato - não podia mais ficar aqui. Ela bateu asas. Prefiro pensar assim. E agora parece que a borboleta deixou algumas pedrinhas por aqui. Ao invés de deixar o vento leve do bater de suas asas. Mas nem tudo são flores, já dizem por aí.
Ah, não bastasse isso, mais um diagnóstico estranho me surpreendeu. "Hepatologista?" perguntei tentando repetir o que a médica havia acabado de dizer. "Sim", respondeu ela. "Um hepatologista para verificar essa alteraçãozinha que apareceu aqui no seu fígado". Mas que caramba! Que raiva desses exames, raiva do meu corpo por dentro, raiva dessas informações. Eu não me lembro de já ter ouvido falar em hepatologista. Mas ok. Marquei esse nome num papel para não esquecer. E agora tenho um punhado de papéis em mãos. Marcar médico disso, exame daquilo. E vida que segue. Sempre assim, vida que segue. Porque enquanto estivermos vivos, vida que segue. Ainda que cheios de notícias e diagnósticos estranhos, a vida segue. E graças a Deus por isso.
Bom, meu pudim no forno já está cheirando. Talvez seja a hora de retirá-lo. E dormir. Mais uma vez, dormir tarde. Eu não queria mais dormir tarde... Queria mudar meus hábitos. Mas algumas coisas precisam de uma força extra que a gente não tem. E, sinceramente, agora nem quero ter forças pra nada. Quero ficar acordada pra sempre. Quando vou dormir, quero dormir pra sempre. E assim vai. E tá tudo bem. Tá bem mesmo, eu juro.
E depois dessa enrolação, espero que esteja tudo bem com o pudim também...

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