Entre uma despedida, mil sonecas, exames e a falta de sorvete

15.3.16

Já eram mais de 4 horas da manhã quando decidi parar de dobrar as roupas recém tiradas do varal para dar "uma deitadinha". Enquanto isso, ele ia de lá pra cá no quarto, arrumando a mala para viajar pra um show. Empurrei as coisas que estavam em cima da cama pro lado dele e deitei. Puxei o cobertor. Ele falou comigo, me explicou alguma coisa que agora nem me lembro, mas no momento prestei bastante atenção. Até fechar os olhos. E dormir. Pesado! Os barulhos que ele deve ter feito no restante da madrugada, eu nem ouvi. Nada.
Dormi pensando em acordar umas duas horas depois, hora de levá-lo pro aeroporto. Acordei, mas não levantei. Acordei com um beijinho dele, me dizendo que já estava de saída. Eu não precisaria levá-lo. O sono pesado deu um suspiro de alívio, a saudade dele murmurou. "Tá bom, boa viagem, te amo". Falei dormindo, mas consciente.
Sábado na cama, sozinha, friozinho. 10 horas e o celular despertou. Exames pra fazer. De cinco em cinco minutos intercalei o sono com o soneca do celular. Quem inventou esse soneca? Merecia um abraço. Ou não. Tão bom dormir cinco minutos. E, por uma hora, foi assim. Cinco minutos. Até que a consciência gritou: não dá mais pra adiar! Levantei num impulso. Coloquei os pés no chinelo, não gosto muito de andar descalça. E o dia está friozinho. E eu estou com dor de garganta. Banho quente resolve tudo. Que vontade de dormir debaixo do chuveiro. O box embaçou. A água estava quentinha, bem quentinha.
Corri colocar a primeira roupa que encontrasse por cima das pilhas que costumo fazer. Ele sempre dobra todas as peças de roupa e guarda tudo, certinho. Eu empilho e deixo em qualquer canto. Até perceber que já está feio. Então jogo no meu guarda-roupas. Tá tudo lá, empilhado, mas ninguém vê. Tipo alguns sentimentos dentro da gente, que vão acumulando um por cima do outro, um ligado ao outro, vão se empilhando e a gente não mexe. Por pura preguiça de ajeitar tudo. Procrastinação, sabe? Essa palavrinha bem conhecida ultimamente. Se começa a mexer, tem que terminar. Sem essa de pelas metades. Então a gente nem começa.
As horas vão voando quando a gente acaba de acordar. Peguei endereço, abri waze, tirei o carro da garagem, desci, fechei portão. Cinto de segurança, embreagem, câmbio, volante. E segui meu rumo comandada por uma voz. Igual na vida mesmo, que sempre tem uma voz indicando a direção. Seja voz da consciência, voz de Deus, voz sei lá. Mas sozinha a gente não vai.
Procurei o número do local, estacionei. Laboratório. Pelo menos dessa vez não vou tirar sangue. Odeio agulha. Igual criança mesmo. Só que sem a parte do escândalo. Quer dizer, acontece um escândalo dentro de mim. Mas pra manter a postura de uma pessoa de mais de 25 anos que a sociedade exige, mantenho a pose. O choro, a raiva, a agonia, medo da dor, da agulha, do sangue... fica dentro de mim. Mas dessa vez é só ultrasson mesmo. "Espere no segundo andar que vão te chamar, enquanto isso tomar bastante água". Água em jejum. Muita água. Uma hora, uma hora e meia e: estou no primeiro andar. Meu Deus! Perdi tempo à toa? Talvez não. Foi um tempo de reflexão enquanto observava um casal que mal se olhava. A mulher parecia brava e o homem, entediado. Eles tinham uma criança - que só tomava bronca. "Sai do chão, senta na cadeira, faz silêncio!" Quando estavam indo embora, o garotinho ainda tropeçou e caiu. Ao invés de um "tá tudo bem?" ouvimos "presta mais atenção!!!".
Subi correndo pro segundo andar e: me chamam! Uffa. Esperar a médica, deitada, numa sala gelada, de bexiga cheia. Tão bom cuidar da saúde, tão ruim fazer exames. Mas vamos aí, como diz meu marido. Pra ele tudo é "vamos aí". O mundo tá caindo, "mas vamos aí". Aprendi isso com ele. E foi um belo dum aprendizado. Vamos aí é uma espécie de contentamento. Bom não tá, mas tá bom. Segue a vida. E a médica repetiu umas 25 vezes durante o exame "respira fundo, segura o ar... solta". Eu gosto de respirar fundo. É um momentinho em que encho meu pulmão, seguro o ar e solto lentamente. Me faz bem. Mas o gel gelado e a doutora apertando aquele aparelho contra minha bexiga não estava nada legal. Fiquei tentando me controlar. Um exercício psicológico: não tá frio, tá tudo bem, já está acabando, minha bexiga nem tá cheia. Relaxa. No meio disso tudo, olhei pra tela do computador e não entendi nada, claro! Mas sempre pensava o pior quando ela congelava uma imagem e fazia uma marcação numa espécie de bolinha escura. A última vez que vi "bolinhas escuras" naquelas fotos estranhas de ultrasson eram nódulos. Um deles cancerígeno, que me levou pra uma cirurgia e um tratamento radioativo. Ah, relaxa, já estou curada! Isso é exame de rotina e nada vai se repetir. No meio disso, passei o exame todo pensando 'quando acabar pergunto pra médica se ela viu algo de diferente ou está tudo normal'. E não perguntei. Sei lá, vou esperar pra ver o exame. E até lá, esquecer. Sou boa nisso de esquecer as coisas pra não ficar ansiosa.
Voltei pra casa tarde já e encontrei a casa gelada e solitária. Ele nem está. Só eu. Abri todas as janelas pra luz do dia e pro barulho da cidade invadirem nosso lar. O sol estava brilhando, mas tava friozinho. Que bom ver o sol! Percorri a casa sentindo o ar circular. Isso, circule! Leve o que tem que ser levado, seque o que precisa ser seco, circule pela casa. Uma oração rápida pedindo pra que não tenha chuva. Só por uns dias que seja. Só até que sequem as lágrimas mais intensas dessas famílias que perderam entes nas enchentes. Olha aí uma rima. Rima ruim.
Fiz minha comida, daquelas confort food, sabe? Sopa me conforta de dentro pra fora. Passei o dia assistindo Globo. E às vezes acho que fico entre Globo e GNT porque as vozes me são familiares. Sinto como se eu estivesse acompanhada. Como se soubesse quem está em casa comigo. Que derrota ficar na globo, heim? Na verdade, derrota mesmo é esse combo: estar em casa "sem ele e sem sorvete"! Na nossa próxima compra, vou pedir que me lembre de pegar sorvete. Pra eu suprir a ausência dele aqui em casa.

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